sexta-feira, 19 de junho de 2020

Filme "Mary Shelley": a triste história da escritora que deu origem ao monstro Frankenstein


" Meu coração fora tomado de angústia e desespero. Dentro de mim, sentia um inferno, que nada podia aplacar."


Ontem assisti um filme muuuito bom e resolvi escrever sobre, além de indicá-lo para quem ainda não viu ou não conhece. O longa se chama Mary Shelley, um filme biográfico que conta a triste e dramática história da célebre escritora que deu origem a uma das narrativas mais famosas do gênero gótico/terror: Frankenstein.



O longa, de 2018, foi dirigido por Haifaa Al Mansour (tendo como roteirista Emma Jensen) e produzido pela Netflix, e conta com a atriz Elle Fanning (que é irmã mais nova da também atriz Dakota Fanning), como Mary Wollstonecraft; Douglas Booth (que interpretou brilhantemente o baixista da banda Motley Crue, Nikki Sixx, no filme "The Dirty"), como o poeta Percy Shelley; Bel Powley, como a irmã de Mary, Claire Clairmont; Stephen Dillane, como o pai de Mary, William Godwin; Ben Hardy, como o médico John Polidori (que se tornaria outro célebre escritor) e Tom Sturridge, como Lord Byron.


A trama se passa no século XIX e mostra a vida de Mary Shelley, desde sua adolescência, seu romance conturbado com Percy Shelley e suas vivências que serviram de inspiração para sua primeira obra, até a conclusão e publicação de seu livro, ainda sem saber que, através deste, ela se tornaria um dos maiores nomes da literatura fantástica/ficcional.


"Seu grande amor inspirou sua criação mais sombria" - Quem foi Mary Shelley ?

Mary Wollstonecraft Godwin, conhecida posteriormente como Mary Shelley, foi uma escritora que ficou famosa por conta do aclamado livro Frankenstein. Filha do filósofo William Godwin e da escritora feminista Mary Wollstonecraft, Mary Shelley cresceu rodeada de livros e ideais considerados avançados para a época (lembrando que, no século XIX, mulheres que pensavam eram consideradas uma afronta à sociedade). Sua mãe, Mary Wollstonecraft, foi uma das primeiras mulheres a levantar a bandeira feminista na época, tendo escrito, inclusive, um dos primeiros livros que retratavam o assunto, chamado "Reivindication of the Rights of Women". Embora ela tenha morrido dias após o nascimento de Mary Shelley, seus ideais feministas e libertários e sua militância foram passados à Mary através de seu pai, que era um grande entusiasta dos ideais iluministas e das pautas liberais (Mary também tinha acesso a livros de filosofia, ciência e mitologia). Dessa forma, Mary Shelley teve uma educação bastante informal e diferente dos padrões da época e, por conta disso, se tornou uma mulher com pensamento bastante crítico, sem se deixar levar pelos costumes e ideais morais aceitos socialmente, questionando, inclusive, o papel da mulher na sociedade.

Mary Shelley em pintura do século XIX

Aos 16 anos, Mary mudou-se para a Escócia, onde conheceu o jovem poeta Percy Shelley, que tinha 21 anos, e os dois acabaram se apaixonando. De volta à Inglaterra, Mary continuou ajudando seu pai e sua madrasta na livraria da família, quando Percy resolveu procurá-la, com a desculpa de que queria se aprimorar na arte da escrita com William. Os dois, muito apaixonados, resolvem viver esse amor, mesmo Percy já sendo casado (somente no papel) e tendo uma filha, que ele não faz questão nenhuma de cuidar. Por conta disso, o namoro dos dois não foi bem visto por William e, principalmente, pela sociedade da época. Seu pai a proíbe de namorar Percy mas, apaixonada, ela resolve fugir com ele, levando sua irmã mais nova, Claire Clairmont

O tempo passa e Mary percebe que Percy não era tudo aquilo que ela imaginava, mas, sem poder voltar para sua casa pois seu pai havia dito que se ela fugisse ele não a consideraria mais como filha, Mary resolve aceitar seu destino e passa panos quentes em muitas situações que ela presencia, como o fato de Percy praticar o amor livre e ficar com outras pessoas além dela. Mary acaba engravidando e dá à luz a uma menina, Clara, que morre um tempo depois. Isso deixou Mary completamente devastada, e pode-se dizer que a morte de sua filha foi um grande trauma. 

Mary e Percy vivem um relacionamento conturbado e difícil, e Percy se torna um alcoólatra ao saber que sua ex-esposa, Harriet,Westbrook, se suicidou (o pai de Harriet assumiu a guarda da neta a partir de então). Após três anos de vivências traumáticas e turbulentas, Mary termina de escrever seu primeiro livro, Frankenstein, que contém muitas das experiências vividas por ela. Mesmo com negativas de várias editoras, ela enfim consegue publicar seu livro em 1818, mas sem ter sua assinatura como autora, visto que corria o risco de não vender, já que naquela época o cenário literário era predominantemente dominado por homens. Como o prefácio do livro foi escrito por Percy Shelley, ele acabou levando os créditos pela história durante um tempo. Somente na segunda edição do livro é que Mary conseguiu assinar como autora. 

Mary e Percy se casaram formalmente um tempo depois (já que a ex-esposa de Percy havia morrido), e permaneceram juntos até a morte dele, aos 29 anos, vítima de um acidente de barco. O casal teve três filhos. Mary Shelley continuou escrevendo e não se casou mais. Morreu em fevereiro de 1851, aos 53 anos, com suspeita de tumor cerebral. 

Mary Shelley em pintura do século XIX

Frankenstein ou o Prometeu moderno

Frankenstein é considerado como o primeiro romance de ficção científica da história, sendo escrito entre 1816 e 1817, quando Mary Shelley tinha apenas 19 anos. Mesmo sendo publicado de forma anônima, o livro recebeu muitos elogios da crítica, principalmente quanto ao embasamento filosófico da história. Mas, na segunda edição, com o nome de Mary já publicado como a autora, surpreendentemente o livro começou a receber várias críticas negativas, e o motivo é bem claro: Era impensável que uma mulher, em pleno século XIX, pudesse escrever um romance de terror gótico que continha críticas sociais e aos avanços da ciência, além de questionamentos sobre nossa existência. 

A capa da edição de 1831, publicada pela editora Colburn and Bentley.
Gravura de Theodor von Holst (1810 - 1844)

A ideia de escrever Frankenstein surgiu em uma noite chuvosa, onde Mary, Claire, Percy e John Polidori estavam hospedados na casa do poeta Lorde Byron, que era amigo de Percy e que inclusive mantinha uma espécie de relacionamento aberto com ele (Lorde Byron atualmente é conhecido como um importante poeta do século XIX e um dos principais representantes do romantismo inglês). 

Entediados por conta da chuva e após uma conversa sobre fantasmas, eles resolveram se desafiar e lançaram então uma competição para ver quem conseguiria escrever a melhor história de terror. Todos leriam as histórias e depois seria decidido quem venceria. Com o passar do tempo, Percy e Lord Byron acabam desistindo, mas Mary seguiu firme no propósito e continuou escrevendo. O médico John Polidori também continuou com seus escritos e, tempos depois, em 1819, concluiu um dos livros que é considerado como o precursor de "Drácula" de Bram Stoker e um dos primeiros do gênero a retratar vampiros: The Vampyre (o Vampiro, em português). 

Mary Shelley usou de seu conhecimento e curiosidade na ciência da época para dar vida ao seu célebre personagem. Ao ouvir conversas entre Percy e Lorde Byron sobre as teorias de correntes elétricas e corpos que poderiam voltar à vida através das descargas dessas correntes, Mary passou a pesquisar artigos de Erasmus Darwin, Benjamin Franklin, Galvani e Alessandro Volta. Dessa forma, imaginou como seria a volta de um morto vivo, uma criatura que possuísse membros de diversas pessoas costurados entre si para formar seu corpo. E é exatamente essa história que Mary escreve, narrando a vida de Victor Frankenstein, um estudante de medicina que, empolgado pelas descobertas científicas, resolve realizar alguns experimentos e dá vida a seu monstro. 

Possivelmente "Frankenstein" era o antigo nome de uma arcaica cidade na Silésia, uma região histórica dividida entre a Polônia, República Tcheca e Alemanha, conhecida hoje como Zapkowice Slaskie (Polônia). Frankenstein foi o nome da cidade no século XIII, que foi renomeada após a Segunda Guerra Mundial. Embora o nome já existisse, Mary afirmava que ela o inventou para o livro. Não se sabe se ela de fato conhecia a origem do nome ou não. 

Até hoje, o livro é amplamente adaptado para o cinema, teatro e músicas. A imagem mais conhecida do monstro, e a que ficou em nosso imaginário quando pensamos em Frankenstein, vem do filme "A noiva de Frankenstein", de 1935, do diretor James Whale.  

Frankenstein em "A noiva de Frankenstein"

Minha opinião sobre o filme e porque indico

Contém alguns spoilers!!

O filme conta a história de Mary Shelley, dos seus 16 aos 19 anos, mostrando um pouco de sua convivência com o pai, madrasta e irmã, sua ida à Escócia, o encontro e romance com Percy, sua vida conturbada e seus momentos solitários onde ela aproveitava o tempo e sua melancolia para escrever, até o término do seu primeiro livro e sua publicação. Parece pouco quando pensamos que um filme biográfico focou somente em três anos da vida de Mary, quando geralmente esse gênero costuma contar toda a história do retratado. A ideia principal, acredito eu, é mostrar os períodos mais importantes e obscuros de sua vida, tudo o que ela passou e que serviu como inspiração para escrever o romance.

Em muitos momentos, senti uma imensa empatia por Mary e Claire. Mary, aos 16 anos, abandonou sua casa e seu pai para viver um romance idealizado em sua cabeça com Percy, mas, nos meses seguintes, percebe que ele não era exatamente o que demonstrava e, dessa forma, vive uma vida frustrada. Com o tempo, Mary acaba engolindo o "amor livre" de Percy e se acostuma com a situação, mesmo cheia de angústia. Porém, ela nunca aceitou o fato de Percy traí-la, e toda a mágoa era passada para o papel, resultando em Frankenstein. Nas pesquisas que fiz para conhecer mais a fundo a vida de Mary, não ficou exatamente claro se ela não aceitava o "amor livre" ou se ela inclusive praticava. Em alguns textos que li, ela era adepta, inclusive encorajando seu marido, e em outros a narrativa é igual a do filme. Dessa forma, não sei afirmar como ela lidava com essa questão, mas achei que o filme fez um recorte muito bom quanto a esse fato. 

Claire Clairmont também sofre uma desilusão amorosa quando se apaixona por Lorde Byron, um poeta narcisista que, sem se importar com os sentimentos de Claire, a trata como mero objeto, principalmente após ela ficar grávida. 

Claire, Mary, Percy e Lord Byron

A narrativa do filme foi algo que eu achei bastante interessante, pois muita coisa não precisa ser explicada ou explicitada para que quem está assistindo possa entender. Em alguns momentos, fica evidente, porém de forma sutil, que Percy Shelley se envolve sexualmente com Claire; a troca de olhares entre os dois é sutil, porém sugestiva. A forma objetificada como os homens tratam as mulheres também é algo que é bastante retratado, principalmente na figura de Lorde Byron, e isso me deixou bastante enojada. 

Uma das coisas que gostei bastante e que o filme explorou muito, foram os ideais libertários de Mary Shelley em uma sociedade onde a mulher era podada de muita coisa. Mary era uma leitora assídua e amante da ciência, e sua forma de pensar confrontava muitos costumes da época. O machismo fica bem evidente no filme através dos diálogos entre os personagens, explicitando que o papel da mulher na sociedade se resumia a ser uma boa esposa e servir seu marido. Vou transcrever dois diálogos que achei muito interessantes e que mostram de forma clara o patriarcado e as relações de poder naquele tempo. O primeiro é uma conversa que Mary Shelley teve com Lorde Byron enquanto ambos estavam olhando para um quadro:

(Lorde Byron e Mary Shelley):

- Afinal o que é a vida sem amor?  (Lorde Byron) 
- Nada, de acordo com vocês, poetas (Mary Shelley ) 
- Sempre acreditei que uma mulher deveria ser inteligente o suficiente para entender o que eu digo, mas não inteligente o suficiente para formar ideias ou opiniões próprias... (Lorde Byron) 


O segundo diálogo é o de Mary Shelley com o primeiro editor que ela visita para a publicação de seu livro:

- Qual sua idade, Srta, Godwin?
- Tenho 18
- É bastante jovem. 
- Se tenho idade para ter filhos, então tenho idade o suficiente para escrever.
- Conteúdo curioso para uma jovem senhorita, não acha? Ainda mais quando se trata da companheira do Sr. Shelley...
- Você está sugerindo que o trabalho pertence ao Sr. Shelley?
- Bom, talvez haja outros textos seus para comparar com esse?
- A história é minha. Perguntou isso ao Sr. Shelley quando ele lhe mostrou o seu trabalho? Ou reserva essa ofensa a jovens mulheres? E ousa duvidar da capacidade de uma mulher de sofrer pela perda, morte, traição. Tudo isso se encontra nessa história, na minha história, que você teria percebido se tivesse usado seu tempo analisando a obra, ao invés de me julgar. 

Esse último eu achei bastante impactante. Em poucas frases, dá para perceber como era difícil, senão quase impossível, que uma mulher pudesse ter sucesso sozinha ou ser considerada como um ser individual pensante, e como Mary quebrou várias barreiras ao enfrentar todo um sistema patriarcal que não dava nenhuma chance às mulheres, onde a única perspectiva possível era casar e ter filhos ou, se acontecesse uma gravidez fora do casamento, ter de cuidar sozinha do bebê e ainda ser responsabilizada e acusada de libertinagem. É por conta disso, de Mary não ser levada a sério somente por conta do seu gênero, que a primeira edição de seu livro foi publicado sem que ela fosse mencionada como a autora. Nas entrelinhas, foi quase como uma condição para que houvesse a publicação. Bizarro.



A fotografia do filme é muito boa e nos remete ao romantismo/período do renascimento gótico da época, o que torna a atmosfera do filme fria e triste, como se houvesse uma grande sensação de tédio, nada de diferente, nenhuma mudança, etc. De fato, acredito que seja por conta disso que existiam poetas como Percy Shelley e Lord Byron, que não se contentavam com os ideias sociais e, de certa forma, iam na contramão dos padrões moralmente aceitos pela sociedade e os confrontavam com suas poesias. Mary confrontava esses ideais tanto quanto os dois poetas mas, por ser mulher, ela simplesmente era ignorada. No filme, não ficou exatamente claro se esses padrões realmente incomodavam a sociedade, eu estou me baseando no contexto histórico da época. A única coisa que parecia incomodar as pessoas, no filme, era o fato de Percy já ser casado quando iniciou um romance com Mary. E olha a parte mais previsível: quem ficou com má reputação, foi ela, claro. Nada novo sob o sol.

O longa é muito bom, tanto pelo contexto histórico (eu amo filmes biográficos e históricos porque aprendo bastante assistindo), quanto pelos atores, figurino, fotografia e sobre como a história foi contada, o recorte da vida de Mary Shelley. Achei muito interessante conhecer, através das telas, a história de uma mulher forte que enfrentou o machismo e patriarcado da época e que usou de seu sofrimento para transformá-lo em arte, criando um personagem onde suas falas são reproduzidas até hoje e nos servem como inspiração para encarar momentos difíceis de nossa vida. Abaixo, deixo o trailer do filme, que está no catálogo da Netflix:





" A invenção, devo modestamente admiti-lo, não consiste em criar disciplinadamente, mas sim em criar a partir do caos."


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